Amora - Natalia Borges Polesso



 Amora é um livro de contos da autora Natalia Borges Polesso que foi publicado pela editora Dublinense em 2015. Comprei o livro em ebook meio que por impulso, em uma daquelas promoções loucas da Amazon.
O que todos os contos desse livro têm em comum? Todos falam de relacionamentos afetivos em diferentes estágios: alguns tem casais no começo de seus relacionamentos, outros abordam o fim. Há também aqueles livros que falam de momentos pontuais, como o primeiro amor ou a descoberta da sexualidade na adolescência. O que esses casais tem em comum, além do amor (ou desamor) entre eles? São casais formados por mulheres.

“A gente some e quer que as pessoas continuem aí, no mundo, para a gente. Como se fossem portos inertes, sempre à espera de um barco que ficou à deriva, sem leme, sem farol.”
Eu, que nunca tinha lido leitura brasileira com personagens homossexuais, achei muito interessante e realista a voz que a autora dá essas personagens homo ou bissexuais em seus contos. Em alguns momentos a escrita de Natalia entra num lirismo que pode ser muito bonito, ainda mais quando fala de casais que não deram certo. Mesmo assim, pessoalmente, prefiro os contos felizes que compõe essa reunião – por serem mais raros, talvez?
Amora, que é o conto que dá título ao livro, conta a história de uma menina em um tornei de xadrez; ela ganha a competição, mas, no mesmo dia, tem o que pensa ser sua primeira decepção amorosa. O tempo, porém, mostra que o primeiro amor da protagonista terá um aspecto muito mais feliz e sensível que um encontro com um menino que a confundiu com outro menino. Amora é um dos contos mais singelos do livro; uma daquelas histórias que você termina com um suspiro e um sorriso no rosto.

“No entanto, era um descolamento, a sensação de não pertencer a lugar nenhum.”
Outro conto que me chamou a atenção foi ‘Dramaturgia Hemética’ que consiste em uma troca de email entre duas mulheres. Gosto muito porque você começa imaginando uma coisa e, quando vê, é tão enganado quanto àquela personagem que recebeu os e-mails de madrugada. Um resumo desse conto é o primeiro trecho que selecionei para essa resenha – algumas pessoas acham que as outras tem que estar sempre a disposição enquanto elas fazem o que quiserem.

“E eu tenho vontade de mergulhar para me curar do amor que ainda não tenho e não sentir a saudade que nem existe.”
Para quem indicar ‘Amora’? Para quem gosta de prosa bonita, com figuras de linguagem e sentimento. E para quem gosta de contos que falam sobre relacionamentos amorosos (ou pseudo amorosos). Como todo livro de contos, é bom ir degustando as histórias sem pressa, para não cair naquela de ler apenas por ler. No caso de amora os contos são curtinhos, dá para ler ao menos uns dois ou três por vez – mais que isso não recomendo, é desperdício de boas histórias numa única tacada.
Nota 8- bom livro.






O processo - Franz Kafka (Resenha)


   "Alguém certamente havia caluniado Josef K. pois uma manhã ele foi detido sem ter feito mal algum."   
   Assim começa o romance "O processo", com a detenção do protagonista, que ocorre (por coincidência ou não) no dia do seu aniversário de 30 anos. A partir desse momento a vida de K. embora em muitos aspectos pareça ser a mesma, também se torna uma sequência de acontecimentos improváveis. K. não sabe de que foi acusado, quem o acusou, qual é a punição e, como a história se passa do ponto de vista desse personagem (apesar de ser utilizada a terceira pessoa), o leitor sabe muito menos.    
   "O Processo" não tem uma linguagem particularmente difícil mas é como se acompanhassemos uma história da qual não sabemos todos os fatos. O mesmo também ocorre com o personagem principal, K. mas até mesmo ele age de uma forma que, para quem está lendo o livro, é completamente incompreensível.
  Desde o primeiro capítulo percebi que esse livro tem algo de sonho, a irrealidade e senso de absurdo que só os sonhos têm. Se tudo fosse um sonho muitas coisas seriam explicadas mas facilmente na história mas um sonho não seria tão longo e nem seria uma explicação muito razoável para o que está acontecendo com K.    
   Quando li "Lojas de Canelas" do autor polonês Bruno Schulz vi uma introdução que comparava o autor a Kafka e, finalmente, entendi o porquê. O absurdo permeia a obra dos dois autores e o tom de sonho, com personagens que se comportam de maneira bizarra em alguns momentos e perfeitamente normal em outros, também está presente na obra dos dois autores. Mesmo assim acho que Schulz divaga um pouco mais dentro de si mesmo, enquanto Kafka é mais objetivo que o autor polonês. Mesmo as divagações de Kafka não são tão ininteligíveis quanto as de Schulz.      

   Acompanhar o andamento do processo de K. e a vida desse personagem é, em grande parte, fazer uma viagem ao subconsciente. Não sou psicanalista ou nada do tipo mas alguns capítulos, entre eles um chamado "O Espancador" tem uma subjetividade que até alguém leigo como eu consegue vizualizar. Mais do que sonho, a matéria que traz o absurdo pra essa história são representações dos pensamentos mais profundos e secretos do autor - talvez por isso Kafka tenha pedido que sua obra fosse destruída após sua morte, esses livros revelam demais sobre ele próprio. O fato de que o personagem principal tem como nome a primeira letra do sobrenome do autor, também reforça esse sentimento de que K. é uma representação do próprio Kafka.
    Embora nunca tenha deixado de me sentir confusa lendo essa história, uma hora o estranhamento fica mais suportável e é possivel seguir a trama com mais facilidade. K. é um homem repleto de culpa, defeitos e assuntos mal resolvidos, de forma que, mesmo que ele continue se dizendo inocente e não haja no livro nenhum prova em um sentido ou em outro - sequer há uma acusação - é difícil não enxergá-lo culpado de alguma coisa. O desfecho parece uma confirmação de que K. acaba por condenar a si próprio com sua passividade ante o que lhe acontece.    
   Claro, essa interpretação se junta a várias outras que vários autores já realizaram ao longo dos anos. O sentido real de "O processo" talvez seja para sempre desconhecido, assim como ficarão incompletos os capítulos começados e não terminados pelo autor. Mas, como o proprio livro diz, não devemos nos prender muito a interpretações já que o texto é imutável. "As opiniões são muitas vezes uma expressão de desespero" por essa imutabilidade.    
   Apesar dessa ambiguidade toda, gostei de conhecer Kafka e pretendo ler outros livros desse autor. Recomendo aos que querem un bom desafio literário - material e não formal como o de autores como James Joyce, por exemplo. Kafka da forma mais simples possível e, ainda sim, ficamos completamente confusos com suas histórias.   
    Nota 8 - um bom livro.


P.S.: O posfácio de Modesto Carone é interessante e elucidativo, apresentando algumas teorias a respeito do sentido do texto. Entre outras coisas, o Carone fala sobre o diálogo entre o livro de Kafka e "Crime e Castigo" de Dostoievski. À conferir, já que ainda não li essa obra do autor russo.

Sobre Guilty Pleasure (ou: Por que sentimos culpa por gostar de coisas "ruins"?)


   Você já ouviu a expressão guilty pleasure? Funciona assim: a pessoa diz que gosta da série/livro/filme X e acrescenta que é "guilty pleasure", porque sabe que é ruim etc etc. Ou seja, um "guilty plesure" é um produto que você consome e gosta mesmo sabendo que é de qualidade duvidosa
    Eu já devo ter utilizado esse termo no blog em algum momento porque é uma maneira bem rápido de explicar que você sabe que aquela coisa X (novamente, livro/filme/série) é ruim mas que gosta mesmo assim. Em uma resenha é quase um aviso "olha, eu estou falando bem disso mas não me xingue, okay? Eu sei que é ruim". Funciona mas, ao mesmo tempo, também me incomoda um pouco toda vez que uso. 

   A primeira coisa que me incomoda é a tradução literal - prazer culpado. Como se a pessoa devesse se sentir culpada por gostar de algo que não é considerado entretenimento de qualidade. Como se fosse necessário um grupo homogêneo de pessoas dizendo que algo é bom para que você possa respirar aliviado e dizer que gosta. 
   Eu entendo que algumas coisas que você goste possam ser tão ruins e tão massacradas que dê até uma vergonha de dizer em voz alta para um grupo de pessoas. Ou tão ruins que você até consegue perceber as falhas e pontos absurdos, mesmo gostando. Mas, falando como um fã da Saga Crepúsculo e alguém que gostou sinceramente do primeiro 50 Tons de Cinza: A gente tem que parar com essa coisa de Ensino Médio de fingir que não gosta das coisas só para se encaixar. Dá vergonha, mas precisamos tirar nossas autores e séries "ruins" que curtimos do armário: do contrário, como vamos encontrar outras pessoas que curtem esse algo tanto quanto a gente? 
   Então o primeiro motivo é esse, uma nova postura de assumir que meu gosto não é só clássicos e coisas cabeças, que também consumo bobagem (no melhor sentido possível). De dizer sem vergonha - ou talvez até com vergonha mas dizer mesmo assim - que não só estou amando Supergirl como também chorei no último episódio da primeira temporada porque pensei que a Kara não fosse sobreviver. A série tem problemas? Claro, principalmente a segunda temporada, que estou assistindo agora. Mas eu gosto. 

   O segundo ponto é que acho esse lance de "guilty pleasure" algo meio arrogante. Porque a pessoa que usa esse termo parece pressupor que, tirando aquelas músicas do Pablo Vittar ou aquela trilogia de romances hot que é o que ela chama de guilty pleasure, todo o resto que ela consome é bom. Tudo bem, você gosta dessas coisas mesmo sabendo que são ruins, ou bobas ou whatever - mas já parou para pensar nas coisas que você gosta e não sabe que são ruins? 
   Quando falo bom e ruim falo, obviamente, em um nível de avaliação técnica, aquela coisa impessoal, sem consideração pessoal. Um livro bom no sentido de ser bem escrito, um filme bom no sentido de ser bem filmado com um roteiro bem elaborado, bons diálogos. Pare e pense: tudo o que eu gosto é tecnicamente bom? 
   Se você for honesto consigo mesmo vai responder que "NÃO". Há momentos em que algo é bem feito ou bem escrito ou historicamente relevante mas esse produto supostamente incontestável não é algo que você gosta. Maior exemplo são os "clássicos" da literatura: eles são aclamados como clássicos por um motivo ou por outro mas, de modo geral, são considerados boas produções. Você gosta de todos os clássicos que lê? Só para citar um exemplo, eu não consegui terminar "O triste fim de Policarpo Quaresma" até hoje porque achei um porre. "O ateneu"? Li duas páginas. São livros clássicos mas não foram livros que me agradaram. 
   É aquele papo de sempre, gostar é algo muito pessoal e individual. É quando o livro dialoga com você de alguma forma ou quando aquele filme tem algo que te interessa, te desperta atenção. Quando a série tem aquele personagem que parece falar tudo o que você quer dizer.
  Gostar não faz sentido, não é racional. Então, lamento dizer, nem tudo o que você gosta e defende com unhas e dentes da internet é bom. Isso vai além daquela comédia boba que você assiste sempre que está se sentindo para baixo, além de guilty pleasure, porque gostar não é um critério técnico, é algo 100% emocional (ok, talvez menos. Eu estou tentando criar um argumento aqui, me ajudem). 

    Então eu entendo o que você (e eu) quando falamos de Guilty Pleasure. É uma forma de avisar "olha, não adianta falar mal de X para mim, eu sei que é ruim". Mas essas mesmas pessoas que comentam "nossa, uma moça tão inteligente, assistindo reality show?" também curtem coisas que não foram validadas ou que não são intelectuais. E está tudo bem, sabe? Porque julgando o coleguinha ou se justificando para um coleguinha imaginário toda vez que for dizer que gosta de algo?
    Pensei nesse texto porque estava lendo o livro da Stephenie Meyer, chamado "A Química". É um livro irregular, algumas partes eu gostei, outras nem tanto. Mas, antes de escrever sobre esse resolvi refletir um pouco sobre essa expressão tão usada e compartilhar aqui com vocês.

 Claro, essa não é uma discussão fechada. Coloque sua opinião nos comentários! Bjs e até a próxima!






A mulher entre nós - Greer Hendricks e Sarah Pekkanen


   Vanessa é uma recém-divorciada que vive uma espécie de "ressaca" do seu casamento. Ela era casada com Richard por muitos anos mas saiu do casamento sem nada e agora está trabalhando numa loja de roupas para conseguir se manter. Mesmo assim, Vanessa ainda repassa obsessivamente os detalhes do seu casamento. Tudo piora quando ela descobre que Richard vai se casar de novo.

    "A mulher entre nós" alterna a narrativa entre Vanessa e Nellie, uma jovem recém chegada a Nova York, que possui um segredo sombrio, apesar de aparentar ser como qualquer outra. Nellie conhece Richard e esse se mostra o porto seguro que ela sempre quis mas, ao mesmo tempo em que vive a felicidade do seu casamento, Nellie também se vê oprimida por algum tipo de ameaça que aparece sob a forma de telefonemas anônimos constantes e objetos mudando de lugar.   
   O que livros como "A garota exemplar", "A garota do trem" e "A mulher entre nós" tem em comum? Primeiro, a narrativa feminina. São todos narrados, em algum ponto, sob o ponto de vista de uma (ou mais) mulheres. Segundo é que todas essas mulheres desses livros parecem gravitar em torno de um homem bonito mas que é mais do que parece ser. 
   Por último, mas não menos importante: todos esses livros tem plot-twists. A primeira virada de "A mulher entre nós" acontece já no meio da trama e é quando o livro fica mais interessante. Depois ocorre a outra mudança na perspectiva e na forma como tudo é narrado pela protagonista - se a primeira revelação me pareceu previsível, essa segunda já foi mais surpreendente.
   Quando eu pensava que o livro já se encaminhava para um fim, há mais duas revelações interessantes que, se não mudam nada na história, ao menos fecham algumas pontas soltas do texto.
  Como thriller, não há o que reclamar de "A mulher entre nós": é uma narrativa gostosa de ler que, em determinado momento, se torna realmente viciante.  Chegando no meio do livro eu tive bastante dificuldade em fazer qualquer outra coisa - queria saber onde a história ia me levar.  
   Por outro lado, algumas coisas me incomodaram no final dessa história. O ponto alto da minha "revolta" foi por volta do penúltimo capítulo, em que há uma espécie de redenção para o vilão da trama. Não entendi o que as autoras quiseram com determinada cena, me pareceu uma tentativa de justificar as atitudes de uma personagem que não tem nenhuma desculpa (ou não deveria ter). 
   Para coroar, a última revelação. Foi... Estranho. Uma revelação de parentesco totalmente desnecessária para tudo, né senti assistindo uma novela mexicana. Mesmo depois de um tempo de ter lido o livro, ainda não entendo as consequências dessa revelação para o andamento de tudo (porque fazer isso?)      
  É importante que se diga aqui que eu fui, durante minha infância/adolescência, uma grande fã de novelas mexicanas. Então não é demérito do livro ter cenas que se parecem com um, pelo contrário, chega a ser divertido quando você se deixa levar. Eu estava sem Internet na semana em que eu li "A mulher entre nós" e esse livro me salvou do tédio profundo.  
 Se você gosta desses thrillers rápidos de ler, com muitas reviravoltas e personagens meio perturbados, leia "A mulher entre nós". Os fãs de thrillers certamente vão conseguir prever algumas coisas mas nada que estrague a trama - por mais que pensemos saber o que vai acontecer a seguir, há sempre uma surpresa a mais na página seguinte.   

   Minha nota é 7,5 - o livro mereceria um 8, porque achei bom, mas tirei meio pontinho por esse detalhe do final que citei acima.


* Livro cedido pela Editora para resenha

Love, Simon (Review)


   Simon é um adolescente de 17 anos comum: seus pais são legais, ele tem uma irmã mais nova com quem implicar, um cachorro, amigos para ir e voltar do colégio. É o tipo de vida que não mereceria uma história (ou um filme) porque não é nada de extraordinário. Se tem uma coisa que o diferencia da maioria dos garotos em situações similares na sua idade é que Simon é gay.
   Não que ele use as palavras logo no início. Simon parece relutar em assumir, até pra si. Somente quando ele começa a se corresponder com Blue é que ele começa a dar nome aquele sentimento que tem de ser diferente de todos os outros. Blue também é da escola de Simon e também é homossexual - os dois começam a trocar e-mails mas nenhum sabe quem o outro é.
    Esse é um filme que eu queria assistir desde que lançou nos Estados Unidos, devido a todos comentários positivos que ouvi à respeito. Mesmo com minhas expectativas bem elevadas, saí satisfeita com Love, Simon.

    Sabe aqueles filmes adolescentes que tinham aos punhados há alguns anos? Ela é demais, 10 coisas que eu odeio em você, Meninas Malvadas, High School Musical, A mentira... Esses são alguns exemplos de filmes sobre o qual eu estou falando. O que todos tem em comum? São filmes, salvo alguns poucos personagens, compostos praticamente por heterossexuais. E, além disso, heterossexuais brancos. Gostei de Love, Simon porque ele trouxe diversidade pra esse tipo de história mas manteve toda aquela pegada teen que fez com que esses filmes marcassem tanto. Simon também é branco mas, ao menos, dá pra dizer que existem pessoas negras ao seu redor.
    Simon  é o tipico protagonista, daqueles que erra o filme inteiro mas consegue te convencer de que é uma boa pessoa, apesar disso. Eu gostei de Simon até mesmo quando ele fazia coisas reprováveis e isso é um ponto positivo do filme além de mérito do ator principal, que é muito carismático.
    Como toda história adolescente, essa também tem sua dose de romance. Foi muito legal tentar adivinhar com Simon quem era Blue e mais legal ainda foi me sentir como uma adolescente no final dessa história, torcendo pelo casal.

   Claro, com um tema principal tão sensível como a "descoberta" da (homo) sexualidade, não dá pra ficar só na comédia. As cenas dramáticas são emocionantes e, por mais que seja um contexto leve, talvez você possa chorar um pouquinho em alguns momentos próximo do fim. Eu chorei, claro, mas isso não é padrão já que eu choro assistindo quase tudo.
    Indico demais Love, Simon e espero que você se sinta tão feliz assistindo esse filme quanto eu fiquei. Não é uma história à prova de erros (dá pra problematizar bastante a representação de certa personagem negra) e também não é aquele roteiro realista. Mas, se você está tendo um dia ruim e quer se sentir um pouco melhor com a vida, Love, Simon pode ajudar.    

  Nota 9 - o filme, dentro daquilo a que se propôs, é muito bom

|TRAILER|


Persuasão - Jane Austen


   Persuasão é um dos últimos livros publicados vida pela escritora Jane Austen. Conta a história de Anne Eliot, uma jovem de família abastada, que se apaixona e fica noiva de um Zé-ninguém chamado Frederick Wentworth.
   O noivado porem não dura muito tempo: Persuadida pela família, Anne termina com o rapaz, que vai embora cheio de mágoa e sem entender seus motivos.
   Já tinha lido Persuasão há alguns anos. Na época tinha acabado de assistir A Casa do Lago e o livro era citado várias vezes. Me lembro de ter gostado da trama e dos personagens mas de ter terminado o livro um pouco decepcionada: Seja pela tradução ou por outro motivo, não consegui enxergar em Persuasão a mesma escrita que conheci em Orgulho e Preconceito e Razão e Sensibilidade, livros que havia lido pouco tempo antes de iniciar esse.
   Voltando a trama, 8 anos se passam antes que Anne e Frederick se reencontrem. Dessa vez a situação está quase que invertida, Anne e a família tem que alugar a casa e se mudar afim de quitar dívidas, enquanto que Frederick agora é capitão e aparece na antiga residência de Anne para visitar a irmã, que havia alugado a casa.
    Se você nunca leu Jane Austen, prepare-se para uma narrativa lenta, com alguns tons de ironia e várias críticas sutis as aparências e ao modo de vida da época. Ao mesmo tempo há também aqueles momentos doces e românticos - mas não se deve ler o livro esperando por eles porque as coisas demoram para acontecer.
   Mesmo fazendo uma releitura, tive a sensação de que a história por vezes estava se arrastando sem nenhum sentido. No meio da narrativa, Frederick desaparece e você fica pensando porque agora essas pessoas de Bath são tão importantes e se ele vai aparecer de novo. Felizmente, não há "fillers" nos livros de Jane Austen, tudo na história tem um propósito, até mesmo a amiga doente de Anne.
   Acho que, assim como aconteceu com Anne e Frederick, o tempo só melhorou a minha relação com esse livro. Nessa segunda leitura (embora tenha achado a escrita da autora diferente em Orgulho e Preconceito) não tive qualquer dificuldade. Isso pode ser tanto devido a tradução da Zahar quanto a meu crescimento como leitora: há mais de 10 anos entre a minha primeira leitura de Persuasão e essa.
    Outra razão para esse livro ter crescido tanto no meu conceito com o passar dos anos tem haver com o tema da história. Por mais que seja uma história de amor, Persuasão também fala muito sobre escolhas e arrependimentos que fazemos na vida: O peso das decisões que Anne teve que tomar quando era mais nova influenciaram o seu caráter, tornando-a uma pessoa mais infeliz (mesmo que não estivesse arrependida). Acho que meu eu de 25 anos dialogou muito mais com essa história do que quando eu tinha 14.
    Não me entenda mal, eu gostei de Persuasão quando o li pela primeira vez. A minha decepção com o livro (além da escrita) foi por ter sentido que faltava alguma coisa na história. Agora percebo que nada faltava no livro mas sim em mim: maturidade e tempo transformaram Persuasão em um dos meus livros favoritos.
   Nota 9,0 - não é perfeito mas é uma das melhores releituras que já fiz.


O Estrangeiro - Albert Camus



Nenhum sofrimento me comove
Nenhum programa me distrai
Eu ouvi promessas e isso não me atrai
E não há razão que me governe
Nenhuma lei prá me guiar
Eu 'to exatamente aonde eu queria estar
(...)
A minha alma nem me lembro mais
Em que esquina se perdeu
Ou em que mundo se enfiou

Mersault é o jovem narrador do estranho livro chamado “O Estrangeiro”, do autor Albert Camus. Porque uso o termo estranho ao tratar desse livro? Porque, embora tudo pareça tudo muito normal e corriqueiro algo também parece muito esquisito durante toda a trama.
Não é como se houvesse algum fato futurista ou fantástico. O estranho mesmo é o comportamento do narrador/protagonista Mersault. Um homem aparentemente comum, com um trabalho comum, pessoas que conversam com ele e o chamam de amigo, uma mulher que o chama de namorado. Tudo corriqueiro – a não ser pelo fato do narrador ser apático a tudo.
A canção Deja vú da cantora Pitty, cujo trecho foi colocado no inicio dá uma ideia de como reage esse personagem a tudo o que está a sua volta. O primeiro parágrafo é icônico e dá bem o tom de toda a trama:
“Hoje mamãe morreu. Ou talvez ontem, não sei bem.”
Percebe-se desde o primeiro momento a indiferença de Mersault com a noticia e o mesmo se repete ao longo de toda a narrativa. A morte de sua mãe, o encontro com uma namorada, seu vizinho espancando o cachorro, nada o abala. Nem mesmo a ideia de uma promoção, de ir morar em Paris a trabalho parece capaz de esboçar qualquer reação de Mersault. Nem mesmo rir esse personagem consegue, é como se estivesse algo nele fechado para o mundo, um abismo que a realidade não consegue transpor.
Como uma espécie de Bartleby emocional (ao invés de “prefiro não faze-lo”, temos o “prefiro não senti-lo”), vemos esse personagem se metendo em uma série de situações moralmente duvidosas na parte 1 até que, ao final desta, ele comete o ato mais impensável possível: mata um homem, sem motivo algum.
Peço perdão caso considerem isso um spoiler, mas está na orelha do livro. De toda forma, nem mesmo matar um homem a sangue frio e sem razão provoca uma reação de Mersault. Na verdade, só há um momento da trama em que vemos algum tipo de emoção e essa emoção é a fúria do personagem quando alguém lhe diz que vai rezar por ele.
O que é Mersault? Qual o significado dessa história e dessa vida aparentemente carente de propósito? Camus parece estar querendo fazer uma metáfora aqui e, me arrisco a dizer, a mensagem talvez seja a de que – no nosso mundo sem raízes e sem pensamento crítico que vivemos hoje – temos todos um pouco de Mersault. É muito fácil levar a vida no automático, não refletindo ou pensando sobre nada, apenas comendo, dormindo e aproveitando tudo o que podemos. Sem moralidade, sem imoralidade, apenas aquela indiferença eterna, no trabalho, na vida, nos relacionamentos. Talvez seja por isso que o livro seja tão perturbador, afinal: é muito fácil se tornar um Mersault.
Ou talvez não seja nada disso e a mensagem de Albert Camus seja outra completamente diferente. Mas deixo aqui minhas reflexões e recomendo o livro para que você também tire as suas. Não sei exatamente se gostei dO Estrangeiro, mas quero ler outras coisas do autor.
Se for preciso dar uma nota: 8. Até a próxima.

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