Livro Eu estou pensando em acabar com tudo - Iain Reid

   

   Um casal viaja por uma estrada praticamente deserta. A moça pensa em terminar com tudo, com o relacionamento e começa a pensar sobre a vida, sobre os relacionamentos. Apesar de gostar de Jake e sentir com ele uma ligação única, ao mesmo tempo ela pensa em terminar pois não está completamente apaixonada. Ela aceitou fazer essa viagem para conhecer os pais de Jake mas está ciente de que será a última viagem que farão juntos. Depois ela irá terminar com tudo. 
   Comecei a assistir uma resenha desse livro mas logo parei pois um dos primeiros comentários do vídeo é o de que "quanto menos você souber sobre esse livro, melhor". Encontrei uma versão do livro em inglês, por meios não muito ortodoxos e comecei a ler imediatamente. 
   O livro é bem curto, os capítulos são bem rápidos de ler, apesar de serem cheio de ideias. As reflexões da personagem principal são interessantes mas, mais do que isso, há o interesse em saber o que raios está acontecendo e o que vai acontecer no final de tudo. 
   Apenas no final do livro é que ocorre algo que poderia ser chamado de "ação". O restante são diálogos, momentos e a sensação de que há alguma coisa muito, muito errada. Talvez seja esse o chamado suspense ou terror psicológico, gênero marcado pela subjetividade e pelos jogos mentais. Enquanto leitora, esse gênero sempre me atraiu.

   Entre a narração em primeira pessoa dessa protagonista sem nome, temos trechos em terceira pessoa, de pessoas comentando um crime horroroso que havia acontecido há pouco tempo. Está implícito que a narrativa da moça irá chegar até aquele momento sangrento mas não temos certeza de como isso irá ocorrer - sequer sabemos o que aconteceu de verdade, apenas que houve morte e não foi uma morte muito agradável. 
   Li a última metade do livro toda de uma única vez. Quando terminei, em inglês, tive que procurar uma versão em português do livro para ler o final todo novamente. Depois que fiz isso, vi que o problema não era meu inglês (realmente) débil mas sim a escrita propositalmente misteriosa do autor nesses últimos capítulos. A intenção era deixar um subtexto ali, uma dúvida sobre o que realmente aconteceu. A ideia geral dessa conclusão eu só entendi quando reli o final e li o primeiro capítulo de novo, em sequência. Agora (acho que) sei o que aconteceu de verdade, o que estava acontecendo desde a primeira vez em que a personagem principal pensou em acabar com tudo. 
    Sem mais detalhes para não estragar o livro para o que ficaram curiosos. Gostei muito da narrativa, na escrita do autor e da experiência de terminar um livro sem ter certeza se realmente o entendi. Mas acho que não é um livro para todos: se você não tem paciência para metáforas e alegorias nem comece esse livro. E se não gosta de tramas que se passam mais no interior dos personagens também é melhor ler outra coisa

   É muito difícil avaliar esse livro com alguma nota mais eu daria 8,5 - gostei daquilo que consegui entender. Esse é o primeiro livro de Iain Reid e pretendo ler mais do que ele publicar pois também gostei da forma com que ele narra a história, por isso o meio ponto. 


   

Lendo Tolstoi, Eurípides e Nelson Rodrigues (DIRETO AO PONTO #021 )

Felicidade Conjugal

Autor: Leon Tolstoi
Ano: 2010    /   Formato: E-BOOK
Editora: Editora 34
Opinião: Essa é uma novelinha bem rápida do Tolstoi, que conta a história sobre uma moça, a forma como ela se apaixonou pelo marido e tudo o que aconteceu depois. Li mais para conhecer a escrita do autor e me surpreendi muito - Tolstoi tem uma escrita fluída e interessante. Além disso ganhou mais alguns pontos por narrar a trama sob o ponto de vista da mulher, algo que (creio) é muito difícil de ocorrer em clássicos, ainda mais escritos por homens. 
Cena: Acho que um dos momentos mais marcantes do livro é o final, quando a protagonista e narradora finalmente encontra a tal felicidade conjugal. Não que eu tenha gostado propriamente desse desfecho mas vejo como o final mais coerente para essa história. 
Nota: 8 - um bom livro para conhecer o autor. Recomendo!

As Bacantes 
Autor: Eurípedes
Ano: 2010 /   Formato: E-BOOK
Editora: Hedra
Opinião: Li A história secreta em 2015 mas esse livro parece que continua ainda um pouco dentro de mim. Em 2016, li O Grande Gatsby só porque todas as resenhas de A história Secreta comparava um livro a outro. As Bacantes eu já tinha no kindle desde aquela época, me foi indicado como um complemento para entender melhor um momento bem específico de A história secreta. Resolvi ler nesse comecinho de ano e achei a história muito interessante, apesar de ser uma peça teatral, gênero que eu não gosto muito de ler. 
Tinhas minhas ressalvas sobre a linguagem do texto mas tudo correu bem - As Bacantes, em termos de tamanho da obra e dificuldade, não é nenhuma Odisseia - podem ler sem medo. 
Cena: Gosto de quando Dionísio executa sua vingança. Eu sei que isso é um tanto mórbido mas o que sempre me fascinou na Mitologia Grega é ver os deuses em ação, para o bem ou para o mal.
Nota: 8 - uma boa leitura para conhecer melhor os gregos. 


O Beijo no Asfalto
Autor: Nelson Rodrigues
Ano:  2012   /   Formato: E-BOOK
Editora: Nova Fronteira
Opinião: Quando era mais nova vivi uma fase de breve interesse pelo Nelson Rodrigues. Lembro que cheguei a ler a peça Álbum de Família e também a biográfia dele, Anjo Pornográfico, que tenho até hoje. À epoca só não li mais coisas dele porque, como eu disse acima sobre As Bacantes, não gosto muito de ler peças teatrais e eu só tinha acesso a elas naquele momento. 
Quando terminei As Bacantes e fui procurar outra coisa no kindle para ler, encontrei esse livro, que comprei meio por impulso, em uma promoção da Amazon. O Beijo no Asfalto conta a história de um homem que, após beijar um desconhecido que havia sido atropelado, passa a ser perseguido pela imprensa, que logo inventa toda uma história em cima do ocorrido. Gostei dos diálogos rápidos e das cenas sem muitas delongas - apesar de composta por 3 curtos atos, essa é uma peça que fala muito mesmo no dias de hoje.
Cena: O final é uma das cenas mais poderosas do texto, quando uma revelação fundamental para o entendimento da trama é feita. 
Nota: 8 - uma boa peça, eu com certeza pagaria para vê-la encenada.

Livro Os 13 porquês - Jay Asher

  
    Quando Clay recebe uma caixa com fitas cassetes ele acha estranho. Afinal, quem ainda usa essas coisas? E por que estavam mandando isso pra sua casa? 
   A resposta vinha de forma chocante: aquelas fitas eram o "bilhete suicida" de Hannah Baker, uma garota de sua escola que havia se matado algumas semanas atrás. Segundo Hannah, se você está ouvindo as fitas era porque tinha alguma culpa na morte dela. 
   "Os 13 porquês" foi escolhido para o Clube do Livro do qual participo. Coincidência ou não, na mesma semana em que li essa história saiu a série na Netflix e todo mundo vem falando o quanto essa história é incrível desde então. 
   A temática do suicídio em livros Teen é algo que me causa sentimentos mistos. Por um lado, acho que o suicídio é um assunto de saúde pública e que o mesmo deve ser discutido nas escolas com tanta seriedade quanto se discute "gravidez na adolescência" ou "drogas". Enquanto o suicídio for um assunto tabu, continuaremos vendo jovens e adultos de nossa sociedade tirando a própria vida porque tiveram vergonha de pedir ajuda. 
   Por outro lado, a minha experiência com livros adolescentes sobre o tema não é lá das melhores. Há sempre o receio de que o suicídio seja tratado como algo ideal, que haja uma banalização do fato. Por lugares incríveis é um exemplo de um livro do qual esperava muito e que me decepcionou. 
   Apesar dos meus receios, o livro acabou se revelando uma ótima surpresa. Temas como suicídio, bullying, assédio, são retratados aqui com seriedade mas também de modo interessante. A trama se desenvolve como um mistério: o que Clay fez para Hannah é a pergunta que não quer calar e que nos deixa motivados a seguir com o livro até que tenhamos respostas. 
   Os porquês da personagem vai aumentando de seriedade e intensidade e estão todos conectados, por isso é interessante. Faz pensar o quanto uma atitude aparentemente inofensiva pode gerar danos emocionais gravíssimos na mente de uma pessoa e o quanto as vezes não percebemos as pequenas crueldade que praticamos (no colegial e na vida). 
   Não posso dizer que fiquei triste lendo o livro. Claro, o desfecho da personagem principal é algo bem para baixo mas meu sentimento principal ao acompanhar essa história foi raiva. Senti uma raiva generalizada ao ler esse livro, não só pelos citados nas fitas mas também por Clay e Hannah. O primeiro porque se coloca numa posição de salvador e por suas atitudes e pensamentos machistas ao longo da história. A segunda por tratar da própria morte como se fosse uma vingança pessoal contra as pessoas citadas. 
   Conforme o livro vai passando vemos que, embora todos as pessoas das fitas tenham menores ou maiores parcelas de culpa pela morte de Hannah, a jovem também já estava em um momento muito difícil. Recém chegada na escola, ignorada pelos pais, Hannah se sentia deslocada de tudo e de todos e coisas vão acontecendo para que ela se sinta cada vez mais deprimidas. É interessante que os porquês 10 e 11 revelam (além do nome de outras pessoas) momentos que deixam Hannah se sentindo culpada - se certa personagem do livro, que sofre uma violência terrível, resolvesse se matar, Hannah seria um porquê dessa garota. 
   Essa auto recriminação é que dá impulso a decisão de Hannah de tirar a própria vida. O motivo 12 é reflexo da apatia que a jovem pensa e do quanto ela quer se distanciar de si mesma. 
   Acho que a principal mensagem do livro vem com o motivo 13. Nós podemos não ser especialistas para lidar com suicidas em potencial, mas temos o dever de levar a sério essas pessoas. Se alguém dizer para você que quer sumir, leve a sério. Se ver alguém se isolando na escola, leve a sério. É muito fácil taxar alguém de louco e seguir com a vida, mas podemos/devemos ouvir essas pessoas, fazer com que elas se sintam compreendidas e busquem ajuda. 
   Recomendo aos adolescentes, ao pais e parentes de adolescentes, aos que trabalham com adolescentes. Nota 8 - um bom livro.


P. S.: um ponto fraco do livro é que não há contexto familiar já história: os pais de Hannah são citados muito superficialmente e não há qualquer menção ao relacionamento dela com eles. O livro me pareceu incompleto sem esse ponto de vista.


Invasão Zumbi, The Invitation e Fragmentado (DIRETO AO PONTO #020)

Invasão Zumbi
Ano: 2016
Atores / Atrizes: Gong Yoo, Yumi Jung, Dong-seok Ma
Diretor: Sang-Ho Yeon
Opinião: Um homem que vai levar sua filha para ver a mãe na cidade de Busan. Uma viagem de trem que tem tudo para ser tranquilo e entediante para esse pai workaholic se torna uma batalha pela vida quando zumbis surgem no trem. Gostei dos personagens e da carga dramática do filme, muito além das cenas assustadoras com zumbis (embora tenha muitas dessas cenas). Não gostei dos próprios zumbis, acho meio bizarro quando eles correm, mas isso parece ser uma tendência desde Guerra Mundial Z, então respeito. 
Cena: O filme tem várias cenas de pura adrenalina, como quando os passageiros descem em uma das estações só para descobrir  o quão espalhada está a epidemia zumbi. 
Nota:  8 - bom filme 

The Invitation
Ano: 2015
Atores / Atrizes: Michiel Huisman, Logan Marshall-Green, John Carroll Lynch etc
Diretor: Karyn Kusama
Opinião: Um homem recebe um convite de sua ex-mulher, para jantar em sua antiga casa, agora ocupada pela ex e pelo atual marido. Dois anos se passaram desde o divórcio, período em que ele se afastou também dos amigos do casal. Mas todos eles estão presentes no encontro; ao longo da noite as tensões entre os convidados e o passado de cada um vem à tona. 

É um filme pela qual não dava muita coisa, só assisti mesmo porque vi em uma lista de melhores de terror do ano e achei a sinopse interessante. O filme é um suspense muito bem conduzido, que vai criando uma paranoia no telespectador assim como no protagonista da história: será tudo loucura ou algo e mórbido vai acontecer no jantar? Só recomendo paciência com o andamento, pouca coisa acontece até quase o final. 
Cena: A cena do desfecho causa arrepios
Nota: 8 - bom filme

Fragmentado
Ano: 2017
Atores / Atrizes: James McAvoy, Anya Taylor-Joy, Betty Buckley
Diretor: M. Night Shyamalan 
Opinião: Um homem com 23 personalidades distintas sequestra um grupo de garotas, a terceira dela de forma não planejada. Ao mesmo tempo em que tentam escapar, essas garotas tem que lidar com várias cantores diferentes vivendo dentro de um só. Mas o pior ainda está por vir. 

Os pontos positivos do filme é o clima de suspense criado pelo autor. Mesmo em cenas que poderiam soar como alívio cômico (como a que mostra uma das personalidades dançando) eu fiquei morrendo de medo de que desse alguma coisa errada em seguida. James McAvoy não está brilhante como Kevin mas faz um papel bem competente retratando diversas facetas de um mesmo homem. É possível sentir medo e pena de seu personagem e eu atribuo isso ao talento dele. 
A maior decepção é minha expectativa quanto ao filme, que foi um tanto frustrada. As pessoas, as propagandas, a mídia especializada falavam tão bem desse filme e da surpresa do final que fiquei esperando algo maior do que o que me foi entregue. Sim, tem uma surpresinha ali para os fãs do diretor (vivemos mesmo uma "geração da referência" né?) mas isso é algo tão longe do contexto da história que a surpresa acabou sendo passageira. 
Cena: a cena que mais me impactou foi o flash back de uma das jovens. Não é uma cena que eu gosto mas tenho certeza de que ela vai ficar na minha cabeça por muito tempo ainda. 
Nota: 8 - o filme é bom. Só isso. 

Filme "Kong: Ilha da Caveira" (resenha)

   
    
   Quem não conhece a história de King Kong? O gorila gigante que, retirado de seu habitat natural, vai para cidade grande e apronta altas confusões? Sinopses clichês a parte, esse clássico de 1933 permanece na nossa cultura até os dias de hoje e recebeu milhares de remake, o último deles em 2005, dirigido por Peter Jackson, mesmo diretor de O Senhor dos Anéis.
   Falo que o último remake foi em 2005 porque para mim esse filme atual não é um remake. Pelo contrário, me parece uma espécie de expansão do Universo do personagem. O objetivo, pasmem, é realizar um  crossover entre King Kong e Godzilla nos cinemas.
   Mas isso é outra história, vamos ao filme. Para quem estava esperando cochilar e dormir "Kong: a ilha da caveira" foi uma grata surpresa. A história tem um ritmo bom e os personagens tem tempo de apresentação antes de irem para a ilha, o que significa que os expectadores acabam tendo motivo para gostar da maioria deles ao invés de torcer para o mostro matar a todos. Ironicamente, os personagens que tiveram mais tempo em tela no período pré-ilha são personagens que se tornam secundários quando vão para o local. Com exceção do personagem de Samuel L. Jackson, que tem bastante destaque na história e é igualmente bem desenvolvido, os personagens principais (vividos por Brie Larsson e Tom Hiddleston) tem um que de artificial, que o roteiro não conseguiu resolver. 
   O filme conta a história de um grupo de pesquisadores que, junto a um pessoal da aeronáutica, vai fazer um reconhecimento na tal "Ilha da Caveira". Os soldados só estão cumprindo ordens ao escoltar os cientistas até lá e quando jogam bombas no lugar. Já os cientistas, como todo cientista nesse tipo de filme, sabem mais do que aparentam e usam bombas para fazer com que os seres que vivem nessa ilha, incluindo Kong, saiam de suas "tocas". Mas acordar um gorila gigante com bombas acaba não sendo uma boa ideia e todos tem que lutar por suas vidas ao mesmo tempo em que tentam escapar da ilha blá-blá-blá. 

   Achei que iria me cansar desse plot rapidamente e dessa super exposição do macaco gorila e tal mas o filme soube dosar as aparições de Kong de forma que haja certa expectativa e empolgação com seu aparecimento. Um dos motivos pelo qual é possível esconder um gorila gigantesco nessa ilha é a descoberta de que na Ilha da Caveira existem mais seres gigantes, além do macaco. Um desses seres, inclusive, é uma espécie de dinossauro subterrâneo - e é também o maior inimigo de Kong. 
   Por mais que eu tenha gostado de ver Kong brigando com diversos seres igualmente gigantescos (a cena do polvo, por exemplo, não tem qualquer contexto na história mas é sensacional) me incomodou essa preocupação do roteiro em apresentar o famoso monstro como algo além do que um monstro. Falar que os "dinossauros" são inimigos de Kong porque mataram o pai do gorila é um exemplo do que eu estou falando. Já que é para ser divertido, que os próximos filmes tenham mais lutas entre monstros e menos dessa palhaçada de contar história da infância do gorila. 
   Claro, essa coisa de atribuir sentimentos ao monstro é um pouco da mística de Kong. A personagem de Brie Larsson é a loira da vez pela qual o macaco acaba se apaixonando e, eventualmente, até salvando. Brie Larsson tem um bom timing para ação e manda bem no filme mas é divertido ver que a personagem dela  acaba tendo mais química com um macaco do que com o personagem de Tom Hiddleston, que seria o seu relacionamento romântico na trama. 

   Sobre Tom Hiddleston, não me senti convencida com essa atuação dele.  Embora fisicamente apto para o papel (está mais forte e bronzeado), falta algo em todos os momentos de luta ou ação do personagem, algo de indefinível, como a forma sensível que ele pega em uma arma ou a total falta de carisma que o ator emite ao tentar viver um mocinho tradicional. O filme teria sido bom o suficiente sem um herói salvador e acho que isso também contribuiu para eu não gostar muito desse personagem. 
    Um personagem que me surpreendeu foi Preston Packard, vivido por Samuel L. Jackson.  No início a gente até entende o lado dele e torce para que ele consiga realizar seus objetivos mas, em mais uma tentativa de humanizar Kong, ele vira uma versão daquele capitão do Moby Dick e só quer saber de matar, matar, matar.  Entendo que é necessário um antagonista que não seja um monstro para que possamos torcer ainda mais pelo monstro mas a mudança me deixou meio pasma. Coisa de louco.
     Analisando o todo de uma forma puramente subjetiva, eu gostei de "Kong: Ilha da Caveira". Não é revolucionário, não é incrível mas é divertido de uma maneira simples. 

   Um filme de sessão da tarde: pra assistir e se divertir sem esquentar a cabeça. Nota 7,5 - o filme é ok e o meio ponto é por algumas cenas bem legais. 

IT (A Coisa) - Stephen King


Bem vindo a Derry! 

   Como destruir algo que a encarnação dos pesadelos de cada pessoa?  IT, livro escrito por Stephen King na década de 80, conta a história de 7 amigos que, um dia, 27 anos atrás, tentaram destruir essa "Coisa". Muitos anos se passaram e todos seguiram com suas vidas, ficaram mais velhos, casaram-se. Uma noite, porém, todos recebem a mesma ligação: devem voltar a Derry. A Coisa havia retornado
   Um calhamaço de 1100 páginas contando a história de um ser assustador e de toda uma cidade que foi construída praticamente em cima do local onde esse ser vivia. Uma história que mescla tanto a infância quanto a vida adulta dos personagens e faz isso de forma que as duas histórias - a do passado e a do presente - terminem quase ao mesmo tempo no livro. Um mostra do ego de Stephen King, uma ode a infância e aos dias que não voltam mais. Há tanta coisa a ser dita sobre IT, mas vou estruturar essa resenha escrevendo sobre cada uma das cinco partes que compõe a história e seguir a partir daí. Para quem quiser saber comentários mais detalhados, no Tumblr do blog há um diário de leitura do livro. 
   A primeira parte é bem curta, apenas nos apresenta alguns crimes ocorridos em Derry na década de 80 e os telefonemas que esses amigos recebem. Todos os crimes parecem estar de alguma forma ligados já que, em todos eles, há sempre um palhaço, que se apresenta como Pennywise, segurando um punhado de balões. Os crimes motivaram esses telefonemas, amigos são lembrados de promessas feitas quando tinham 11 anos e (quase) todos retornam a Derry. Nesse primeiro tempo já há a alternância entre o passado e o presente dos personagens e, quando vi a parte da infância, foi impossível não lembrar de Stranger Things. Há algo nessa coisa de crianças saindo perseguindo monstros que me lembra essa série mas a atmosfera nostálgica a verdadeira razão pela qual isso me ocorreu.  O próprio King comentou sobre a familiaridade das séries com suas obras, então acho que não estou tão maluca ao fazer essa comparação. 
   Como ocorre em O Iluminado, também de King, aqui o mal não está em pessoas ou em um contexto mas sim na própria Derry. Como no hotel Overlook, as coisas estranhas vem acontecendo nessa cidade há muito tempo e o mal parece ter se entranhado por ali desde a sua fundação. Não é só uma rua, não é só uma casa - toda a Derry parece estar amaldiçoada e corrompida e a razão tem tudo a ver com o palhaço Pennywise, com A Coisa. 
   A parte 2 do livro se concentra no início de verão de 58, mostrando como os 7 se conheceram e as coisas assustadoras que viram na época. Bill Gago, o líder do grupo, é um garoto triste que perdeu o irmãozinho de repente, uma história meio esquisita que destruiu a sua família e que ele não entende direito. Eddie é o amigo asmático de Bill e o vê como uma espécie de herói, alguém quem ele gostaria de ser mas que não pode, devido as doenças (reais ou imaginárias?) que sua mãe diz que ele tem. Richie, o boca de lixo, é irreverente, bem humorado e chega a perder a mão algumas vezes, por sempre querer fazer piada de tudo e de todos (sem filtros). 
Magda PROski

   Há também Ben, um menino gordo e sozinho, que encontra com Eddie e Bill por acaso, quando estava fugindo de meninos chamados Henry, Arroto e Victor pelo local conhecido como Barrens (uma espécie de matagal de Derry, onde se passa boa parte da história). A partir daí Ben também faz parte do grupo, conhece Richie e Stan, um judeu quietinho e um tanto misterioso. Bev também se junta ao grupo na segunda parte, uma menina linda, excluída pelas outras garotas da sua idade por morar na parte pobre da cidade. Todos os meninos são um tanto apaixonados por Beverly (Ben mais do que todos) mas, naquele verão, Bervely se apaixona totalmente por Bill. 
   Embora Mike, praticamente o único garoto negro que vive na cidade, seja citado nessa segunda parte e embora seja ele que tenha feito todos aqueles telefonemas anos depois, ele não se reúne ao grupo naquele início. Talvez tenha sido uma estratégia do autor para prolongar a história? Não é como se IT precisasse de algo assim. De qualquer forma, a forma como Mike chegou ao grupo, durante a "apocalíptica guerra de pedras" que ocorre na parte 4, é um dos melhores momentos do livro. 
   Esse é o terceiro livro que leio desse autor e já consigo identificar alguns elementos padrões em sua história. O primeiro é um toque de inacreditável que sempre permeia a suas histórias, alguma situação tão absurda e fantástica que acontece e faz com que o leitor tenha que abandonar completamente a voz da razão para comprar aquilo que está sendo escrito. Em IT esse momento foi quando Bill e Richie visitam uma casa abandonada. Já estava começando a comprar a história de que A Coisa é uma criatura sobre-humana e assustadora mas como levar a sério um monstro que espirra com pó de mico? Nas mais de 1000 páginas que compõe essa história acabamos percebendo que esse elemento infantil é proposital, que não é a toa que tenham sido 7 crianças a desafiar "A Coisa" etc. mas, como uma pessoa que já leu uma história de King sobre uma máquina de passar assassina, posso afirmar que esses momentos bizarros e estranhos são a cara dele. 
   O segundo elemento/assinatura do autor que reconheço nessa obra e nas outras dele que li é que, por mais que sejam histórias de medo e horror, há sempre algum elemento de tristeza, pesar ou melancolia na trama. No caso de IT esse sentimento é mais uma saudade que permeia as frases e momentos do passado e presente dos personagens. Ler Stephen King para mim é sempre uma mistura de ficar com medo, tentar superar algumas passagens e me emocionar em outras. Tem algo triste nesse autor e isso me toca profundamente - não é a toa que comecei e terminei esse livro com lágrimas nos olhos. 
   A terceira parte, com os amigos já adultos e reunidos, é a que menos gosto. A figura dA Coisa só funciona, só faz sentido para mim quando coloquei nela um olhar de criança e quando li sob o ponto de vista de crianças. Quando a narrativa foca em adultos tanto o personagem quanto a trama perdem a força. Não por acaso, foi nesse momento, entre a página 400 4 a 600 do livro, que comecei a achar Pennywise um pouco sem graça e repetitivo. Não dá para ter medo de um monstro que você vê toda hora. 
   Felizmente, a quarta parte volta a se focar nos personagens quando crianças, e o livro engrena de novo. Gosto muito das cenas envolvendo a rivalidade entre o grupo de Henry Bowers e o grupo de Bill Gago. Bowers é o único antagonista humano dos meninos que vemos e acompanhamos de perto e da para ver sua loucura aumentando ao longo das páginas. Mas um pouco dessa loucura é um pouco influência do pai de Henry e, claro, dA Coisa. 
   Nesse ponto a figura dA Coisa acaba se tornando a figura do mal encarnado. Em Nárnia, Aslan não criou sua antagonista, a feiticeira essa chega ao mundo criado por ele quase por acaso. Em IT o mesmo acontece, a coisa não foi criada. A cena de sua chegada a Terra, no entanto, me soou um pouco sem graça e forçada. 'Show don't tell' não funciona para King: ele tem que mostrar E falar para não deixar nenhuma dúvida no que ele está mostrando. 
BANKSY

    A última parte da coisa reúne a conclusão do último confronto com A Coisa, 27 anos atrás e o confronto atual. Novos elementos são adicionados à trama e há momentos de tensão quando os amigos fazem o ritual que chamam de Chüd, bem nas profundezas de Derry. 
   Alternando, ora o passado, ora o presente, descobrimos a história como um todo e a natureza dA Coisa e da própria Derry. “A Coisa” é a externalização do mal, se alimenta de crianças, literal e metaforicamente: é a fé das crianças que o monstro  quer, uma fé que é capaz de acreditar em coisas que os adultos esqueceram faz tempo. Derry está contaminada por essa coisa, por esse mal e todos os habitantes parecem ser mais ou menos influenciados por ela (é por isso que tantas coisas ruins acontecem em Derry).
   A razão pela qual A Coisa é desafiada por crianças no início é porque essa fé infantil também pode poder: é necessária certa dose de fé para encarar o mal nos olhos e não enlouquecer de vez e isso falta nos adultos. 27 anos depois, Stan, que sempre foi adulto para sua idade, enlouqueceu só de pensar em encarar "A Coisa" de novo. Para o restante do grupo conseguir derrotar esse tipo de mal seria necessário, de alguma forma, voltar a ser um pouco das crianças que foram 27 anos atrás. 
   Não quero dar Spoiler nesse final e ainda estou refletindo sobre tudo o que esse livro me causou. Há certamente muitos pontos positivos e que dialogaram comigo: no fundo é uma história sobre o bem e o mal, sobre amor, amizade e infância. Há também aquela nostalgia melancólica das histórias do autor, aquela sensação de que as coisas jamais serão como antes. Isso é triste mas também é muito bonito.
   Por trás desse desfecho porém há uma história muito irregular, com páginas demais, pontos de vista demais, personagens demais. King parece ter a necessidade de dar um nome e uma história para cada pessoa que já pisou em Derry e, embora isso possa ser interessante para dar realismo a trama, no decorrer das páginas acaba ficando um pouco cansativo. Além disso, nesse mesmo desfecho que me emocionou há situações que eu simplesmente não posso acreditar que estão ali, como a cena com Beverly e os meninos no meio dos esgotos de Derry há 27 anos. Sério, qual a necessidade daquela cena? 
   Há também a super utilização do monstro. Pennywise sequer aparece no encerramento do livro e a razão disso, imagino, é que nem King se assustava mais com o palhaço macabro. Ao invés disso vemos A Coisa em sua "verdadeira forma", o que foi um recurso interessante para renovar a trama na reta final mas que não seria necessário se houvesse um pouco mais de cuidado na utilização desse antagonista inumano. Em determinado ponto da história Henry Bowers foi mais assustador para mim do que A Coisa e, mesmo que tenha sido mostrado que Bowers foi influenciado pela criatura, achei isso mais uma demonstração do quanto a história acabou sendo prejudicada pela quantidade de páginas
   Apesar de todas as ressalvas acima dei 4 estrelas para IT no Skoob. Como eu disse acima, no fundo essa é uma história sobre a infância, sobre a amizade e eu senti isso em cada um desses momentos entre Bill, Ben, Richie, Eddie, Beverly, Mike e Stan. Cada um desses personagens acabou se tornando meu amigo ao longo desses dois meses de leitura e, por isso, não consigo dar uma nota baixa para esse livro, apesar de todos os problemas que citei. 
   Já estava com saudades dos personagens quando vi que saiu o trailer do filme. Mal vejo a hora de assistir IT nos cinemas, embora tenha consciência de que filme nenhum, por mais longo que seja, seria capaz de retratar tudo o que vemos e sentimos ao ler IT.
   Nota 9 - muito bom. 

|LEIA A SINOPSE DO LIVRO NO SKOOB|


'Passageiros',' Assassin's creed' e 'Autópsia de Jane Doe' (DIRETO AO PONTO #018)


Passageiros
Ano: 2017
Atores / Atrizes: Jennifer Lawrence, Chris Pratt, Michael Sheen
Diretor: Morten Tyldum
Opinião: É a história de Jim, um rapaz que está viajando numa nave espacial a caminho de outro planeta mas acaba acordando antes de todo mundo - 90 anos antes, para ser mais preciso. Em determinado momento do filme Aurora também acorda e ela e Jim começam a se apaixonar. 
Esse filme é o maior exemplo do que uma propaganda enganosa pode fazer. Eu tinha a sensação de que essa seria uma história cheia de ação e cenas divertidas, já que envolve um elenco de qualidade e conhecido pelo seu bom humor (Lawrence e Pratt). Ao invés disso, o que temos aqui é um romance que se passa no espaço. O filme tem todas as características de contos de fadas, com direito a referências à "Bela Adormecida". O final até aquece o coração mas imagino a reação das pessoas que foram ao cinema ver uma ficção científica e se depararam com esse romancinho água com açúcar.
Cena: Eu gosto das cenas de conversa entre os personagens e o robô, Arthur. Tem umas ceninhas de ação bacanas mas quem disse que eu gosto de ação?
Nota: 7 - o filme é ok. Não crie expectativas e pode gostar tanto quanto eu. 


Nome do filme: Assassin's Creed
Ano: 2017
Atores / Atrizes:  Michael Fassbender, Marion Cotillard, Jeremy Irons
Diretor: Justin Kurzel 
Opinião: Uma empresa de video game resolve fazer um filme de um de seus sucessos e contrata um elenco excelente, além de estar disposta a investir uma cacetada de dinheiro em efeitos e outras coisas. O que pode dar errado? 
Tudo. Esse filme é a prova disso. Ficaram tão preocupados em fazer cenas incríveis pro trailer que se esqueceram de criar um roteiro interessante e coerente. Entre "os atores de peso", Marion Cotillard faz o pior papel de sua carreira e Michael Fassbender interpreta um Magneto que usa capuz. 
Cena: o filme é visualmente interessante, todas as cenas que se passam na Espanha são legais. Mas do que vale isso se a história é uma droga?
Nota: 6 - não gostei


Nome do filme: A autópsia de Jane Doe
Ano: 2017
Atores / Atrizes: Emile Hirsch, Brian Cox, Ophelia Lovibond
Diretor: André Øvredal 
Opinião: Primeiro terror que assisti em 2017, se passa em um necrotério, onde pai e filho precisam fazer uma autópsia em uma desconhecida durante a madrugada (Jane Doe é uma gíria para desconhecida em inglês). Conforme a autópsia vai avançando, a situação vai ficando mais assustadoras.
Esse é um filme de baixo orçamento, com uma proposta interessante e algumas cenas assustadoras. Não me matou de susto mas gostei da história e da forma como ela foi contada. Me lembrou "O navio fantasma", "A casa da colina" e outros filmes de terror em que espíritos se encarregam de envolver os personagens em uma ilusão e levá-los a loucura. 
Cena: Nunca pensei que sentiria medo ao ouvir o som de um sininho. Parabéns ao diretor. 
Nota: 8 - bom filme. Embora não seja espetacular ou revolucionário é uma boa pedida para os fãs do gênero, cheio daqueles clichês que amamos.

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