Filme Estrelas Além do Tempo (Hidden Figures) #Oscar2017

  
    O ano é 1961. Os Estados Unidos estão em um grande momento econômico, JFK é o presidente e os americanos estão em plena guerra fria com a URSS; eles disputam, entre outras coisas, quem conquistará o espaço primeiro. 
   De um modo geral é um bom ano para morar nos Estados Unidos e para se trabalhar na NASA. A menos que você seja uma mulher negra como as três protagonistas desse filme. Nesse caso, você será relegado a uma área separada das outras pessoas, será tratada pior do que qualquer outra pessoa no local e todos vão te olhar como se você fosse um ET que acabou de pousar ali mesmo no Cabo Canaveral. 

   Esse poderia ser mais um filme mostrando o racismo americano que existia a não muito tempo atrás: negros andando na parte de trás dos ônibus, bebedouros e máquinas de café separada para negros e brancos - até mesmo o banheiro era diferente para "mulheres de cor". O que torna "Estrelas Além do Tempo" tão especial é o fato de não se prender na parte triste dessa história - em uma época em que ônibus com negros eram queimados unica exclusivamente porque havia negros dentro, essas três mulheres galgaram posições extremamente importantes na NASA, uma das agências americanas mais prestigiadas daquele período, "apenas" por serem brilhantes. E isso é mostrado no filme de forma bem alto astral (na medida do possível).

   Acompanhamos a história dessas três amigas, Katherine, Dorothy e Mary. A primeira é transferida para o primeiro escalão da NASA, trabalhando para conseguir lançar o primeiro homem ao espaço. A segunda quer ser uma supervisora e, em uma época em que um computador dominava uma sala inteira, aprendeu a controlar essa máquina (e ensinou outras mulheres!). Já a terceira,  Mary, precisa lutar para se tornar engenheira em um local que, antes, era exclusivo para brancos. Com muito jogo de cintura, genialidade, ousadia e empreendedorismo, essas mulheres arrasaram em uma época machista e em um ambiente mais machista ainda, sendo pioneiras na história da NASA. 
   O mais incrível não é descobrir o que essas (e outras) mulheres negras fizeram pela NASA. Surpreendente mesmo foi que ninguém tivesse contado ainda suas histórias e que seus nomes não tivessem maior destaque ou homenagens. Essas "Figuras Escondidas" (como diz o título original) precisavam vir à tona e não vejo maneira melhor para isso ser feito do que como foi nesse filme. 

   Sobre as atuações, tanto Octavia Spencer quanto Janelle Monae e Taraji P. Henson arrasaram em suas representações mas infelizmente só Octavia está concorrendo a um Oscar. Fiquei muito chateada quando soube disso, principalmente por Henson que, ao meu ver, faz uma perfeita Katherine G. Johnson. A falta de indicações pode ter sido ao fato da atriz ter inserida na disputa como melhor atriz (uma categoria mais concorrida) enquanto Spencer estava como melhor atriz coadjuvante. Eu ainda preciso assistir mais filmes das indicadas para melhor atriz para ter certeza, mas essa ausência me pareceu um tanto injusta. 
   Indico esse filme para aqueles que gostam de histórias de superação ou histórias reais com pessoas incríveis. Mesmo sabendo que é difícil que leve algum prêmio,  "Estrelas Além do Tempo" é um dos meus favoritos no Oscar até agora. Até me emocionei um pouco no final, quando mostram as fotos das verdadeiras "Estrelas" - isso reflete o tanto que essa história me tocou e foi importante para mim. 
   Nota 9 -  muito bom

P.S.: Mahershala Ali, que concorre a melhor ator coadjuvante por Moonlight, também está nesse filme. 


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Filme Lala Land - Cantando as Estações (Resenha) #Oscar2017


   Um musical concorrendo ao Oscar, em pleno 2017, em 14 indicações. La la land já chegou aos cinemas brasileiros como um fenômeno. O que havia nesse filme que despertasse tanto amor dos sindicados responsáveis pela premiação? Será que a história é tudo isso mesmo?
   O filme conta a história da aspirante a atriz Mia, que mora em Los Angeles a anos, sonhando em se tornar uma atriz. No entanto, o mais perto que ela chega dos sets é trabalhar como garçonete nos estúdios da Warner. Nesse momento em que a carreira está estagnada, Mia conhece Sebastian, um pianista apaixonado por Jazz, que sonha em abri sua própria casa para tocar as músicas que ama, mas que se vê obrigado a tocar música de Natal em bares.
   Como o subtítulo "Cantando as Estações" sugere, o filme se passa ao longo de todas as estações, começando e terminando no inverno. Isso não significa que a história toda se passa em um único ano, só mudam as estações, não sabemos quanto tempo passou entre uma e outra. O certo é que, desta forma, vamos acompanhando a relação de Mia e Seb, tudo envolto de muitas músicas, cores e dança
   Damien Chazelle, diretor de La La Land já havia falado sobre música antes, no visceral Whiplash. Mas, embora o diretor tenha dado declarações de que filmou Whiplash para mostrar que poderia fazer La La Land, é apenas o jazz e a música que unem ambos os filmes, sendo a abordagem completamente diferente. La La Land é um musical clássico, cheio de cores, dança e momentos grandiosos e belos. É um filme mais realista dos que os musicais clássicos, mas não perde a leveza e a beleza nem o ar de encantamento que produz em cada cena. O oposto de Whiplash, portanto. 
   Chazelle escolheu fazer um filme todo colorido e este vai desde o cenário até as roupas utilizadas pelos personagens durante a trama - até a paisagem tem cor. Há também um ar retrô nos vestuários e nos ambientes, mas vemos várias vezes os personagens utilizando o celular, então não dá para dizer que esse é um filme passado nos anos 50 (embora pareça). 
   Ainda sobre a direção, posso estar errada, mas tive a percepção de que o diretor procurou gravar tudo com o mínimo possível de cortes e repetições. Isso é ótimo, porque deixa o filme mais fluído e dá espontaneidade as cenas: quando Emma Stone e Ryan Gosling cantam juntos ao piano, há um momento em que um deles erra e os dois riem brevemente antes de continuar. Isso é fofo e dá realismo aos musicais - não precisa ser perfeito para ser mágico (algo que se aplica a várias coisas no filme). 

       Emma Stone e Ryan Gosling tem uma química excelente, já demonstrada em filmes como "Amor a toda prova". Em La La Land eles não só nos convencem como um casal, mas também entregam atuações impecáveis. São dois atores conhecidos por muita gente mas conseguem encarnar os personagens tão bem, que você até se esquece da personalidade por trás da atuação. Como ponto negativo para essa dupla fabulosa estão as vozes um tanto limitadas de ambos. Mas Gosling e Stone compensam esse porém com muita dança e carisma (E Gosling aprendeu a tocar piano em 3 meses, o que é impressionante).
   Este é um filme que homenageia muito Hollywood e o cinema de antigamente. Para os fãs dos musicais há certamente muitas referências a esse gênero mas, mesmo o que leigos (como eu) podem ver. A trama do filme, sobre seguir em busca dos seus sonhos e não perder a esperança, também tem muito do cinema de antigamente, mas contem alguns detalhes que remetem ao cinema atual, razão pela qual eu falei algumas vezes nessa resenha sobre realismo. 
   Falando em referências, percebi certa meta-linguagem no filme. Seb gosta de jazz clássico, um gênero em extinção, assim como os musicais e muitas das frases utilizadas por ele para justificar à Mia a razão de tanto amor por esse estilo, podem também se aplicar ao gênero. Quando Mia quer fazer um monólogo, novamente Seb dá um discurso que pode muito bem se aplicar ao filme que estão fazendo. Não é loucura dizer então que La la Land faz referências a Hollywood e também a si mesmo, enquanto musical. 

   Se eu tinha altas expectativas sobre esse filme, todas elas foram satisfeitas quando o assisti. La La Land tem um encanto todo especial e justifica as inúmeras indicações ao Oscar e também a apreciação geral. É impossível para alguém que goste do genero não se emocionar e encantar com essa trama. 
   Isso não significa que tudo seja previsível. Acho que no final há a cena mais bonita do filme, talvez aquela que tenha dado a obra sua (futura) estatueta de melhor filme. Porém não é algo que eu esperava e trouxe algumas reflexões adicionais para essa trama.
   Se você gosta de histórias de amor com dança sobre as estrelas, assista La La Land. Mais do que uma história de amor, temos aqui uma reflexão sobre os sonhos e sobre o que temos que desistir na nossa vida para poder chegar ao lugar em que queremos estar. 
   Nota 9 - muito bom - e minha aposta para melhor filme.

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P.S:   Tinha escrito uma resenha gigantesca para esse filme no momento em que acabei de assisti-lo, pouco mais de duas semanas atrás. No entanto, por algum motivo que me escapa o entendimento, essa resenha se apagou aqui no blogger, só restanto uma página vazia e um título. Se por um lado foi bom poder pensar no filme novamente passada algumas semanas, por outro é frustrante ter que relembrar todos os meus argumentos para a resenha. 

   

|FILME| Até o Último Homem (Ricksaw Ridge) - Resenha #Oscar2017


   Como a maioria dos indicados ao Oscar, eu procurei saber o mínimo possível sobre "Até o Último Homem" antes de assisti-lo. No final, acabei vendo no Twitter o trecho de uma cena bem forte que ocorre durante a guerra mas  isso só me fez ter mais vontade de ver o filme. 
   Eu imaginava que esse fosse apenas mais um filme de guerra, dessa vez dirigido pelo Mel Gibson. Mas qual não foi a minha surpresa ao descobrir que se trata da história do primeiro (e único) Objetor de Consciência a ganhar uma Medalha de Honra durante a guerra. Para você que não sabe o que é um objetor de consciência e está com preguiça de clicar no link acima, trata-se de uma pessoa que, por motivos diversos, é contra a parte combativa do exercito ou contra o exercito como um todo. No caso de do protagonista do filme, sua religião (Adventista do Sétimo Dia) o impedia de pegar em uma arma mas ele quis servir durante a Segunda Guerra mesmo assim, como socorrista do campo de batalha.

   O protagonista, Desmond Doss, é um jovem simples, magrelo, pelo qual não se dá muita coisa. No início, Doss sofre muitas perseguições devido a sua recusa de pegar em armas mas acaba, aos poucos, conquistando o respeito de seus colegas e superiores. Andrew Garfield, que está indicado ao Oscar por sua atuação como Doss, está muito diferente nesse filme. Seja no porte físico, mais magro, ou na forma de falar ou na expressão facial e trejeitos, Garfield dá um show digno de Oscar e acabou se tornando a minha torcida para a categoria de melhor ator. 
   O filme é dirigido por Mel Gibson, que também recebeu indicação de Melhor Diretor. Acho difícil que ele ganhe mas tempos aqui uma história típica dos filmes desse diretor, cheia de cenas visualmente bem fortes. Gibson tem essa habilidade de fazer com que as pessoas gostem de seus protagonistas e se importem com eles - em Até o Último Homem temos mais disso. 
   Apesar de ter achado essa história inspiradora e emocionante, achei o ritmo dela um tanto esquisito. Primeiro, temos a infância e adolescência de Desmond, o que é ótimo para conhecermos o que leva o protagonista a ser que é. Palmas para atuação Hugo Weaving, que vive o alcoolizado pai de Doss e age como um exemplo de tudo o que o personagem não quer ser. O problema, na minha opinião, é que o roteiro foca um tanto demais nessa parte e acaba correndo em outras que, ao meu ver, seriam mais importante. 

   Por exemplo, o treinamento no exército ocorre muito rapidamente e, embora tenhamos muitas provas das objeções que Doss sofreu por pensar daquela forma, o filme peca em não se focar muito em seus colegas de farda. De fato, só consegui guardar o nome de um ou dois e lembrar o rosto de outros poucos - mas não deu para sentir muita empatia por eles (talvez pelo personagem do Vince Vaughn, mas isso pode ter sido mais a minha surpresa com esse ator fazendo um drama). 
   A mesma "pressa" que eu vi nos treinamentos, também foi aplicada na última batalha do filme. Mas, nesse caso, até vejo certa razão: esse não é um filme de guerra padrão, em que os heróis são feitos com a destruição do outro. Nesse filme o herói salva vidas, muitas delas do próprio campo inimigo. Logo, o ponto alto do filme e a sua mais bela sequencia ("Please God, help me get one more") ocorre justo quando Doss está salvando pessoas (e realizando o feito pelo qual recebeu uma Medalha de Honra). 
   
   Eu não sei se o filme teria o mesmo efeito para uma pessoa não-religiosa. Eu não sou Adventista do Sétimo Dia como o personagem principal mas consegui me identificar com ele e com suas ações por acreditar em Deus e em fazer o bem ao meu próximo. Talvez  acreditar em seus princípios e fazer o bem sejam conceitos acima de qualquer religião mas, não custa avisar, Até o Último Homem tem um viés religioso bem pronunciado.
   Recomendo Até o Último Homem, o "filme de guerra do Oscar 2017", mas do que teria imaginado antes de assistir ao filme. No final, apesar de todas as cenas cheias de sangue e membros voando, temos aqui algo da jornada do herói. Um único homem pode fazer a diferença e esse é (mais um filme) a mostrar isso.
   Nota 8,5 - bom filme, meio ponto pela atuação incrível de Andrew Garfield. 

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Filme Evereste - Resenha

  

 O ano é 1996. Um grupo de alpinista que quer escalar o monte Everest tem o experiente Rob Hall como guia para essa empreitada. Rob tem uma empresa especializada no Everest e já havia escalado o monte 4 vezes, logo, era a pessoa mais capacitada para liderar aquela expedição. Logo nas primeiras cenas vem a informação: a parte final da montanha é conhecida como "Zona da Morte", não só porque é onde mais acontecem mortes durante a escalada mas porque as condições lá em cima são tão ruins (temperatura, altitude) que o corpo começa a morrer, literalmente, no momento em que eles entram nessa parte da escalada. Rob explica que é por isso que eles tem que chegar ao cume e retornar rapidamente, caso contrário poderão morrer por ficar demais ali. 
   Eu não sei vocês mas, se eu estivesse numa escalada, só essa informação já teria me feito ir embora. "Não, obrigada, não estou afim de colocar meu corpo num limite arriscado só para ver uma montanha alta". Mas, é claro, alpinistas vivem dessas emoções e consideram esses desafios mortais como etapas que tornam a conquista do monte ainda mais importante. Quando um alpinista sobe até o cume de uma montanha ele a conquista, e é isso o que importa para essas pessoas. Mas por que fazem isso? Porque a montanha está lá, é o que eles dizem no filme, quando o jornalista John Krakauer faz essa mesma pergunta. 
   O filme foi inspirado em 2 livros que contam a história real dessa tragédia no alpinismo: 'No Ar Rarefeito' e 'Deixado para morrer', o primeiro escrito por Krakauer e o segundo por certo sobrevivente da tragédia. Não li nenhum dos livros mas me interessei por assistir o filme depois da resenha que a Tati Feltrin fez de "No Ar Rarefeito". Assisti no Telecine e, apesar de já ser de madrugada, não cochilei como geralmente ocorre quando resolvo assistir algo tão tarde - isso já é um ponto positivo para o filme.
Jake Gyllenhaal arrasa em Everest (como sempre, aliás)
   A trama é basicamente essa, contar uma tragédia que ocorreu o Everest. Se você não sabe nada sobre esse desastre vai ficar como eu quando assisti a Evereste, sentindo aquela sensação de que algo vai acontecer/ alguém vai morrer mas sem saber quando e nem quem. Não consegui criar muita empatia com os personagens mas, depois que as coisas começam a dar errado, é impossível não ficar impressionado e triste com o destino deles. 
   Como pode dar tudo tão errado de repente? Parafraseando um dos personagens, "O Everest faz suas próprias regras". E, por mais que as paisagens e cenas sejam emocionantes, o ponto alto do filme para mim são as pessoas e as reações delas frente a tudo o que aconteceu. São nessas situações extremas que as pessoas mostram o que tem de melhor e de pior, seja voltando para ajudar um amigo, seja deixando um colega em dificuldade para trás - considerando que é uma história real, isso se torna ainda mais interessante de observar. 
   No final a sensação que dá é que tem que ser meio louco e individualista para concluir essa empreitada com vida. Quem banca o herói, quem quer salvar todo mundo numa situação dessas, certamente acabará morrendo. Mas será que vale a pena viver sabendo que deixou tantos amigos para trás? Embora válido, tal questionamento não pode ser feito no alto da montanha - ali é tudo decidido rapidamente, o que revela ainda mais o caráter de cada um.
   Mesmo assim, é importante ressaltar a sobriedade da trama. Não há aquele impulso Hollywoodiano de demonizar um personagem e transformar outro em um herói. Certo, há atitudes reprováveis e outras dignas de aplauso mas não temos aquelas grandes cenas de salvamento, aqueles momentos cheios de drama e redenção com um cara carregando o outro nos braços e a tempestade ao fundo, ao som de uma música emocionante. Não espere nada disso em Evereste, a direção não apela para esses clichês emocionais, apostando na correção das informações e na forma da própria história para causar emoção. Eu até derramei algumas lágrimas no final, mas não tanto quanto esperava em uma trama como essa.
   Gostei do filme e recomendo para os que gostam de histórias baseadas em fatos reais e com cenas visualmente impressionantes. Evereste foi uma grata surpresa para um final de noite - só depois descobri que alguns atores concorreram ao Oscar de 2015 por suas atuações neste filme.
   Nota 9 - muito bom. 

Filme Manchester à beira mar (resenha) #Oscar2017

   
   Lee Chandler trabalha como um síndico em Boston. Ele mora em um quartinho em um dos complexos de apartamento em que atua e passa o dia realizando pequenos reparos e serviços. A única coisa que se parece com diversão na vida de Lee é ir beber até ficar bêbado em algum bar e arrumar briga com alguém. Ele não tem mulher e nem se preocupa em conseguir uma. Ele sequer sorri, até seu tom de voz é triste. 
   Quando recebe a notícia de que seu irmão está no hospital e volta para Manchester é que começamos a entender os motivos por trás dessa existência vazia. Ao mesmo tempo em que tem que lidar com o golpe da morte do irmão e com  o sobrinho adolescente, Patrick, Lee também revive seu próprio passado quando retorna a sua cidade natal. 
   Manchester à beira mar é um dos indicados ao Oscar que eu tinha mais vontade de assistir. Não porque soubesse algo a respeito da história (não sabia nada) mas porque acho o título desse filme muito poético e as imagens que vi do filme me pareceram poéticas também. Acho que esse é o equivalente cinematográfico a querer ler um livro porque achou a capa bonita. 
   A perspectiva de acompanhar essa história sob o ponto de vista de um homem tão deprimido quanto Lee no começo não parece tão ruim mas depois acaba pesando um pouco. Por mais que o roteiro tenha uma série de pequenos momentos que poderiam ser de humor, o peso da história de Lee parece deixar todos esses momentos meio acinzentados. Eu não sei se todos que assistiram ao filme se sentiram dessa forma, mas fiquei bem pra baixo assistindo "Manchester à beira mar". 

   Falando sobre o suposto humor da história, não espere nada engraçadinho como "Pequena Miss Sunshine" ou "Juno". As discussões entre Lee e Patrick (principalmente no carro) e os momentos entre o jovem adolescente e uma de suas namoradas é o que mais perto se vê do humor nesse filme. Há humor de uma forma cínica na cena em que a esposa de Lee é colocada na ambulância por exemplo - o processo dura minutos, o que poderia ser engraçado se não estivéssemos vendo o personagem principal no pior momento de sua vida. 
   Lee é interpretado por Casey Affleck, que concorre ao Oscar de melhor ator por esse papel. É impressionante a forma como  ele consegue mostrar a transição do personagem da figura despreocupada e inconsequente de antes para alguém totalmente embotado e vazio. A postura e voz de Affleck mudam e, no segundo momento, você só precisa ouvir a voz dele para saber que algo horrível aconteceu e que se trata de um homem muito, muito triste. 
   Com uma trilha sonora composta basicamente por músicas eruditas de cortar o coração e uma fotografia toda cinzenta, Manchester à beira mar é um dos filmes mais depressivos que já vi numa lista do Oscar desde que acompanho a premiação. Não que seja um filme triste - eu sequer chorei assistindo, embora algumas cenas, como a de Lee se despedindo do irmão e a conversa entre ele e a ex-esposa (vivida por Michelle Williams), tenham me deixado bem perto.

    A depressão está no olhar apático de Lee, e no passado que é impossível superar vivendo em Manchester. Está na voz de Casey Affleck, na fúria e impotência que o personagem mostra em alguns momentos - só para retornar a apatia e tristeza nos momentos seguintes. Está na declaração de Lee para o advogado, quando este se demonstra surpreso que Lee não soubesse que iria ser o guardião de Patty após a morte do irmão. "Achei que você estivesse sempre por aqui", diz o advogado. "Eu sou apenas o estepe" (I'm just backup), Lee responde e entendemos que ele se sente incapaz de assumir o protagonismo na tarefa de cuidar de outra pessoa. O flashback no final dessa mesma cena nos explica o porquê. 
   Nem mesmo o final  "feliz" conseguiu me alegrar, fui dormir com esse filme na cabeça e acordei pensando em como é possível uma história ser tão triste e te deixar tão mal sem apelar para cenas de dramalhão. Os entendidos talvez digam que a direção ou o roteiro combinamos com a trilha sonora e atuação. Já eu me sinto incapaz de analisar esse filme, e embora reconheça os méritos da trama por me causar tudo isso, admito que foi muito difícil concluir essas 02h10 - além de depressivo, o filme é bem lento. 
   Dei duas estrelas no filmow para Manchester à beira mar mar, o que (na avaliação do blog), seria um 7 - filme razoável. Acontece que esse filme não é razoável: por um lado reconheço seus pontos positivos e acho que merecia um 8 (bom). Por outro lado, eu não gostei da trama o deveria dar em 6 (não gostei). Mas, ao mesmo tempo em que não gostei, eu também não detestei o filme é a nota 6 me parece injusta... 
   Estou me complicando aqui. Preferia não fazê-lo mas para manter a tradição dou a "Manchester..." a nota 7. Não recomendo esse filme para ninguém mas assista se você quiser ver o babaquinha do Casey Affleck na melhor atuação de sua carreira.

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Filmes Piada Mortal, Lights Out e Ex Machina (DIRETO AO PONTO #016)


Nome do filme:  Piada Mortal
Ano: 2016
Atores / Atrizes:  Mark Hamill, Kevin Conroy, Tara Strong
Diretor: Sam Liu
Opinião: O que leva um homem a loucura? Essa é uma pergunta que essa animação pretende responder. Baseado na HQ homônima, Killing Joke foi escrita para ser a última, e mais perturbadora, história da rivalidade entre o Coringa e o Batman. Já conhecia os principais acontecimentos dessa animação, por isso achei que o início foi um pouco lento demais. Porém, logo após a primeira aparição do Joker as coisas começam a acontecer de forma mais acelerada. 
Cena: A cena do final foi tão pouco específica na animação quanto nas HQs. Mas é a mais impactante.
Nota: 7 - é ok, legal para conhcer um pouco mais dos personagens da DC.


Nome do filme:  Quando as luzes se apagam
Ano: 2016
Atores / Atrizes:  Teresa Palmer, Maria Bello, Billy Burke
Diretor:  David F. Sandberg
Opinião: Rebecca é uma jovem meio perdida na vida. Ela tem vários problemas com a mãe e esta é a razão pela qual ela acabou se afastando também do seu irmãozinho mais novo. Quando as luzes se apagam, porém, Rebecca vai perceber que as coisas podem fiar ainda piores e que os pesadelos podem ser reais.
O filme é fraquíssimo. O roteiro está tão preocupado com os sustos e a criação de momentos interessantes com o contraste entre o claro e escuro que esquece do básico que é fazer uma história coerente na qual os expectadores possam se identificar com os personagens.
Cena: O começo é bom. Há também algumas boas cenas de susto, mas não salvam o conjunto medíocre.
Nota: 6 - não gostei.

Nome do filme:  Ex Machina 
Ano: 2016
Atores / Atrizes:  Domhnall Gleeson, Alicia Vikander, Oscar Isaac
Diretor: Alex Garland
Opinião: Em um futuro incerto, um jovem ganha um concurso para fazer um moderno teste de Turing: conversaria com Ava, robô criada por um gênio do computador chamado Nathan e definiria, através de certo número de sessões com a Android se ela tinha verdadeira inteligência artificial - ou não. 
A grande pegada desse filme é o clima de suspense criado logo na primeira sessão, quando Ava diz a Caleb, o jovem encarregado do teste, que ele não deveria confiar em Nathan. A partir daí começam as suspeitas de Caleb a respeito do criador dos robôs, ao mesmo tempo em que começa também a fascinação crescente do protagonista pela robô Ava. 
O expectador acompanha essa trama com crescente ansiedade e o filme recompensa essa imersão na trama com um final que é um verdadeiro soco no estômago. 
Cena: O final, claro. Não só umas das cenas mais impactantes do filme como também uma verdadeira reviravolta na história e em seu protagonismo. 
Nota: 8,5 - o filme é bom mas dei meio ponto pelas discussões que ele sucita a respeito do que é vida, do que é inteligência artificial etc. 

Filme Moonlight - Sob a Luz do Luar (Resenha) #Oscar2017


At some point, you gotta decide for yourself who you're going to be. Can't let nobody make that decision for you.
   Chiron é um jovem tímido, que vive na periferia de Miami e é perseguido por ser menor do que os outros. Um dia ele conhece Juan, um traficante cubano, que o acolhe e o leva para a casa por uma noite. É Juan quem leva Chiron a praia pela primeira vez à praia e é ele quem conta a história que dá título ao filme, uma história que termina com a frase que coloquei no início dessa 'resenha' e que resume a intenção do filme.
   Ao longo de 1h50 acompanhamos a vida deste menino, passando por 3 fases: a primeira, que se chama "Little" por esse ser o nome pelo qual os outros meninos chamavam Chiron, conta sobre a infância do jovem. A segunda parte tem como título o próprio nome do garoto e fala sobre sua adolescência e todos os dramas que vem nessa fase - é na adolescência que o ocorre um dos momentos mais dramáticos e de cortar o coração desse filme. 
   Por fim, temos a ultima parte, intitulada "Black", em que conhecemos a face adulta desse jovem, agora endurecido pela vida. Nesse ponto do filme Chiron tem que lidar com o seu passado e finalmente "decidir por si mesmo quem vai ser". Esse momento é um tanto curto para todo o potencial que tinha, mas entendo o final meio abrupto: a decisão foi feita, fim de papo.
Primeira fase do filme e a atuação excelente de Mahershala Ali

   A direção, roteiro e trilha sonora deste filme são muito bonitas e formam um conjunto delicado e bonito. O personagem principal vem de um bairro difícil e passa por momentos ainda mais difíceis, ainda mais por se descobrir homossexual numa vizinhança pobre e homofóbica. Mas é tudo narrado com beleza, delicadeza e doçura, contrastando com aquele mundo barra pesada em que Chiron vive. Destaque também para as atuações, principalmente a de Naomie Harris, como a mãe viciada em crack do jovem e Mahershala Ali, que vive um traficante que ajuda o garoto quando pequeno. Não é à toa que ambos são indicados ao Oscar de 2017, estão de parabéns por sua atuação (assim como os atores que fazem Chiron nas 3 fazes do filme, que conseguiram nos fazer acreditar que se trata mesmo de uma só pessoa - os trejeitos do personagens sobrevivem em todas as fazes).
   Sobre o enredo, é o tipíco filme de descoberta da identidade. Nós acompanhamos esse personagem ao longo da sua vida e vemos as formas, as vezes brutais, com que sua personalidade é moldada. Como dito acima, no final o personagem finalmente se descobre, mas é tão abrupto o final logo após essa descoberta que me senti um pouco desorientada.  Se você for assistir Moonlight grandes são as chances de dizer "Como assim já acabou?" quando chegar ao final. 
Chiron na adolescência
   Mas nada disso tira o mérito da obra ou a beleza de sua história. Um filme com todo o elenco formado por negros indicado ao Oscar também me parece uma bela mudança, quando comparada a premiação do ano passado, em que nenhum negro foi indicado para nenhuma categoria. Note que aqui não se trata de discutir o mérito do filme - Moonlight é sim um merecedor dessa indicação. Mas, sem a discussão que houve no ano passado e as mudanças que decorreram destas, esse filme talvez não fosse hoje indicado a 8 categorias, entre elas melhor filme e diretor. 
   Indico para os que gostam desse tipo de trama e para os que se importam muito mais com a jornada do personagem do que para as reviravoltas na trama ou finais arrebatadores. Que fique aqui registrado a minha torcida para Mahershala Ali para ator coadjuvante. 
   Nota 7,5 - bom filme, mas tirei meio ponto por causa do final - mesmo entendendo porque interromper a história ali, queria ver um pouco mais da história de Chiron.